O poder narrativo dos mapas. A Frontex, um exemplo de desinformação

De três em três meses, a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, Frontex, divulga um mapa que documenta as “detecções de passagens ilegais de fronteira” ao longo das rotas migratórias do Mediterrâneo Central e dos Balcãs Ocidentais para a Europa (ver Figura 1 como exemplo visual). Estes mapas têm sido fortemente criticados por investigadores da área das migrações como sendo “mitológicos” e “surrealistas”, devido à sua representação eurocêntrica e defensiva das migrações contemporâneas em direcção à Europa (ver Van Houtum e Bueno Lacy 2020a).

Com o objectivo de se familiarizar com os perigos da produção cartográfica e de se preparar para a criação de uma cartografia crítica e plural das migrações para, a partir de e dentro da Europa, a equipa educativa do Lives in Motion tem vindo a analisar estes mapas da Frontex juntamente com um/a estudante de Geopolítica das Migrações do MIDI. Tudo isto para compreender de que forma tais mapas consolidam as estruturas de poder eurocêntricas e supremacistas brancas nas narrativas migratórias — estruturas essas que pretendemos desmontar e contrariar com o #Livesinmotion. Este artigo resume a nossa desconstrução crítica de um mapa exemplar da Frontex, examinando como aquilo que os investigadores Van Houtum e Bueno Lacy (2020a) definiram como a “GRELHA”, as “SETAS” e o “ENQUADRAMENTO” do mapa apresentam a migração como um fenómeno unidireccional e ameaçador do qual a Europa se deve defender.

Este artigo coloca em prática as chaves de leitura cartográfica desenvolvidas por Van Houtum e Bueno Lacy (2020a,b), de modo a que a equipa de desenvolvimento de recursos do Lives in Motion possa incentivar o eventual desenvolvimento de outras formas contrastantes de criação cartográfica que questionem criticamente o modelo de produção de mapas da Frontex (ver, por exemplo, Van Houtum, 2024).

À medida que nos acompanha nesta desconstrução passo a passo, recorde-se de que os mapas nunca são inerentemente factuais. Pelo contrário, os mapas removem ou simplificam sempre elementos do espaço e da situação da vida real e visualizam o mundo a partir da perspectiva social, cultural e política específica de quem os produz. De facto, como afirma o professor e cartógrafo Mark Monmonier: “Os mapas mentem sempre.” (Columbro 2021). Uma vez que os mapas são sempre uma interpretação simbólica e necessariamente redutiva da realidade, serão sempre informados pelas escolhas, preconceitos e intenções dos seus autores e serão sempre representações visuais daquilo a que o filósofo John Searle chama “factos institucionais”, ou seja, “factos que requerem instituições humanas para a sua existência” (Searle 1999). Assim, a chave para uma leitura crítica de um mapa é perguntar sempre: “Porque decidiu o autor representar a realidade desta forma?” “Quais são as suas intenções?” (Van Houtum, 2024).

“A GRELHA”

Tal como explicado por Van Houtum e Bueno Lacy (2020a), a “grelha” refere-se à demarcação territorial do mapa. Esta coloca o continente europeu como o centro e foco do mundo e apresenta a terra como uma série de “compartimentos” separados e delimitados, definidos pelas suas fronteiras nacionais (Van Houtum e Bueno Lacy 2020a). A “grelha” também torna as pessoas invisíveis: elas surgem apenas como uma parte anónima e inseparável dos territórios e Estados em que são “compartimentadas” (ibid.).

“AS SETAS”

Van Houtum e Bueno Lacy (2020a) explicam ainda que as “setas” no mapa da Frontex, com as suas pontas afiadas, representam “riscos”, assinalando o acto de migrar como algo “penetrantemente” invasivo e perigoso. Segundo Van Houtum e Bueno Lacy: “Fazem com que o trânsito de pessoas que procuram abrigo ou trabalho pareça tão perigoso quanto forças armadas invasoras” (ver também Jones, Reece e Fluri 2020: 158). Além disso, as linhas rápidas que convergem para as cabeças inchadas das setas sugerem deslocações rápidas, automáticas e contínuas através do continente africano em direcção à Europa, como se as migrações ocorressem num fluxo ininterrupto e sem obstáculos (Van Houtum e Bueno Lacy, 2020a).

“O ENQUADRAMENTO”

A dimensão desproporcionada da cabeça da seta e a sua posição dominante em relação ao resto da Europa (é representada como sendo tão grande quanto toda a Península Ibérica, França, Alemanha e Grã-Bretanha) (Jones, Reece e Fluri 2020; Van Houtum e Bueno Lacy 2020a) sugerem a presença de massas incontroláveis de pessoas a marchar de África, do Médio Oriente e da Ásia para sobrecarregar a Europa, quando, na realidade, apenas 3,3% da população mundial vive fora do seu país de nascimento e os migrantes indocumentados representam apenas 0,1–0,7% da população total da UE (Van Houtum e Bueno Lacy 2020a). O contraste de cores neste enquadramento — o vermelho escuro das setas em movimento, que normalmente sugere anormalidade, perigo, aviso, promiscuidade sexual, raiva e medo, face ao azul aberto e pacífico da Europa — reforça a construção da migração indocumentada como uma ameaça intensa à segurança, à paz e à ordem (Van Houtum e Bueno Lacy 2020a).

A “grelha”, as “setas” e o “enquadramento” do mapa transformam a questão da migração indocumentada numa fonte de ameaça rápida e avassaladora para a Europa, quando, na realidade, a migração irregular é um fenómeno numericamente reduzido e, paradoxalmente, uma das únicas formas de as pessoas exercerem o seu direito de asilo (Art.º 18 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia) e o direito de abandonar o seu país (Art.º 12 do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos). Todas as pessoas detentoras de passaportes incluídos na lista Schengen “negativa” (135 dos 195 países do mundo) têm praticamente nenhuma possibilidade de obter um visto para entrar regularmente na UE por motivos humanitários ou laborais (Van Houtum e Bueno Lacy, 2020b). É esta discriminação e a construção do que Van Houtum e Bueno Lacy (2020b) designam por “fronteiras de papel” — uma clara violação do Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos (“todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”) — que torna a passagem irregular para a UE num modo de migração necessário e inevitável.

Fontes

Columbro, Donata (2021) Ti spiego il dato. Milão: Quinto Quarto.
Searle, John (1999) The future of philosophy, Philosophical Transactions: Biological Sciences, 354(1392): 2069–2080.
Frontex (2024) Migratory Routes. Disponível em: https://www.frontex.europa.eu/what-we-do/monitoring-and-risk-analysis/migratory-routes/migratory-routes/ (consultado em 21/01/2026).
Van Houtum, Henk; Bueno Lacy, Rodrigo (2020a) The migration map trap. On the invasion arrows in the cartography, Mobilities, 15(2): 196–219.
Van Houtum, Henk; Bueno Lacy, Rodrigo (2020b) The Autoimmunity of the EU’s Deadly B/ordering Regime, Geopolitics, 25(3): 706–733.
Van Houtum, Henk (2024) Free the Map. From Atlas to Hermes: A new cartography of borders and migration, Nai010 Publishers: Roterdão.

Este artigo foi elaborado no âmbito do Lives in Motion, um projeto educativo não formal criado pela Maghweb em parceria com a CPS, a WWF e a Polylogos, financiado pela EACEA no programa CERV, vertente Memória Europeia.

Financiado pela União Europeia. No entanto, as opiniões e pontos de vista expressos são apenas dos autores e não reflectem necessariamente as da União Europeia ou da entidade financiadora. Nem a União Europeia nem a entidade financiadora podem ser responsabilizadas por elas.

The Narrative Power of Maps. Frontex, an example of misinformation

Every three months, the European Border and Coast Guard Frontex, releases a map documenting “detections of illegal border-crossing” along Central Mediterranean and Western Balkan migration routes into Europe (see Figure 1 as a visual example). These maps have been strongly criticised by migration scholars as “mythological” and “surrealist”, in their eurocentric and defensive portrayal of contemporary migrations towards Europe (see Van Houtum and Bueno Lacy 2020a).

In order to become familiar with the dangers of map making and prepare for the creation of a critical, plural mapping of migrations into, out of and within Europe, the Lives in Motion education team has been analysing these Frontex maps with one of MIDI’s Geopolitics of Migrations students. All this to understand how such maps cement the eurocentric, white supremist power structures in migration narratives that we want to dismantle and counteract with #Livesinmotion. This article summarises our critical deconstruction of an exemplary Frontex map, examining how—what scholars Van Houtum and Bueno Lacy (2020a) have defined as the map’s “GRID”, “ARROWS” and “FRAME”—posit migration as a mono-directional, threatening phenomenon that Europe must defend itself from. This article puts into practice the map reading keys developed by Van Houtum and Bueno Lacy (2020a,b) in order for the Lives in Motion resource development team to help encourage the eventual development of other, contrasting forms of map creation that critically questions the Frontex map making model (see e.g. Van Houtum, 2024). 

As you follow us through this step by step deconstruction, remember that maps are never inherently factual. On the contrary, maps always remove or simplify elements of a real life space and situation and visualise the world from the specific social, cultural and political perspective of their maker. In fact, as professor and cartographer Mark Monmonier says: “Maps always lie.” (Columbro 2021). Since maps are always a symbolic and necessarily reductive interpretation of reality, they will always be informed by the choices, prejudices and intentions of their makers and they will always be visual representations of what philosopher John Searle calls “institutional facts”, “facts that require human institutions for their existence” (Searle 1999). Thus the key to critically reading a map is to always ask: “Why has the maker decided to represent reality in this way?” “What are their intentions?” (Van Houtum, 2024).

“THE GRID” 

As explained by Van Houtum and Bueno Lacy (2020a), the “grid”  refers to the map’s demarcation of territory. It posits the European continent as the centre and focus of the world and displays land as a series of separate, delineated “compartments” which are defined by their national borders (Van Houtum and Bueno Lacy 2020a). The “grid” also makes people invisible: they are simply an anonymous and inseparable part of the territories and states in which they are “compartmentalised” (Ibid.). 

“THE ARROWS”

Van Houtum and Bueno Lacy (2020a) continue to explain that the “arrows” on the Frontex map and their sharp, pointed heads depict “risks”, marking the act of migration as “penetratively” invasive and dangerous. Van Houtum and Bueno Lacy: “They make the transit of people seeking shelter or work look as dangerous as incoming armed forces” (see also Jones, Reece and Fluri 2020: 158). Furthermore, the swift lines sweeping up to the arrow’s swollen heads suggest quick, automatic and continuous journeys across the African continent towards Europe, as if migrations are taking place in an uninterrupted, unhindered flow (Van Houtum and Bueno Lacy, 2020a). 

“THE FRAMING” 

The disproportionate size of the arrow’s head and its dominant position in relation to the rest of Europe (it’s made to look as big as the entire Iberian Peninsula, France, Germany and Britain) (Jones, Reece and Fluri 2020; van Houtum and Bueno Lacy 2020a), suggests the presence of uncontainable masses of people marching from Africa, the Middle East and Asia to overwhelm Europe when in actual fact only 3.3% of the world’s population lives outside of their country of birth and undocumented migrants make up only 0.1-0.7% of EU’s total population (Van Houtum and Bueno Lacy 2020a). The contrast of colours in this frame: the dark red of the moving arrows typically suggesting abnormality, danger, warning, sexual promiscuity, anger and fear against the open, peaceful blue of Europe brings home the construction of undocumented migration as an intensive security threat to peace and order (Van Houtum and Bueno Lacy 2020a).

The “grid”, “arrows” and “framing” of the map transform the question of undocumented migration into a fast-moving, overwhelming source of menace for Europe, when in reality irregular migration is a numerically small phenomenon and paradoxically one of people’s only ways to exercise their right to asylum (Art. 18 Charter of Fundamental Rights of the European Union) and right to leave one’s country (Art. 12, International Covenant on Civil and Political Rights): all the individuals of the world holding passports listed on the ‘negative’ Schengen list (135 out of 195 countries) have almost no chance of receiving a visa to enter the EU regularly on a humanitarian or work-related basis (Van Houtum and Bueno Lacy, 2020b). It is this discrimination and construction of, what Van Houtum and Bueno Lacy (2020b) call, “paper borders”, a clear violation of Article I of the Universal Declaration of Human Rights (“all human beings are born free and equal in dignity and rights”) that makes irregular passage to the EU into a necessary and inevitable mode of migration.

Sources:

Van Houtum, Henk (2024) Free the Map. From Atlas to Hermes: A new cartography of borders and migration, Nai010 Publishers: Rotterdam.

Columbro, Donata (2021) Ti spiego il dato. Milano: Quinto Quarto

Searle, John (1999) The future of philosophy, Philosophical Transactions: Biological Sciences, 354(1392): 2069-2080.

Frontex (2024) Migratory Routes. Available at: https://www.frontex.europa.eu/what-we-do/monitoring-and-risk-analysis/migratory-routes/migratory-routes/ (Accessed: 21/01/2026).

Van Houtum, Henk, Bueno Lacy, Rodrigo (2020a) The migration map trap. On the invasion arrows in the cartography, Mobilities: Issue 2, Special Spection: Reproductive Mobilities, 15(2): 196-219. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/17450101.2019.1676031

Van Houtum, Henk & Bueno Lacy, Rodrigo (2020b) The Autoimmunity of the EU’s Deadly B/ordering Regime; Overcoming its Paradoxical Paper, Iron and Camp Borders. Geopolitics, 25(3), 706–733. <https://doi.org/10.1080/14650045.2020.1728743>

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